
O derradeiro encontro
A manhã começou triste para ele. Era o dia em que finalmente se encontraria com ela. Não seria um compromisso qualquer nem trivial, até porque demorara um pouco para conseguir marcar a data. A moça se mostrara relutante em ceder ao seu pedido até que pela constante insistência dele sua resistência foi vencida.
Este seria um dia diferente dos outros. Um dia marcante em sua vida porque finalmente teria a conversa pedida por ele há muito tempo e adiada por ela sem qualquer explicação. Ainda deitado em sua cama suspirou olhando o teto ante a perspectiva daquela conversa. Não tinha certeza de como se desenrolaria o encontro mas acreditava que provavelmente selaria a vida dos dois em definitivo. A partir de hoje seguiriam a vida juntos ou se tornariam dois seres espalhados em outras direções.
Sentou-se na cama. Sentiu um peso enorme no estômago e os olhos quase se encheram de lágrimas. Respirou fundo, fez uma expressão séria para si mesmo e disse: é melhor resolver de uma vez porque a indefinição estraga a vida. Espantou o choro e se concentrou. Hora de levantar e enfrentar a vida e o que tiver de ser, será.
Há semanas, melhor dizendo, já quase quatro meses, que a eloquente convivência deles se transformara em silêncio. Um silêncio frio que abria em sua imaginação as portas para as piores suposições. Ele sabia que não havia nada mais intenso que o silêncio do desencontro. Não falar era um dos momentos mais mortais em uma relação com problemas. E ai estava o primeiro deles: não fazia ideia porque ela se calara da noite para o dia. Qual seria afinal o problema que motivara ela a privar os seus ouvidos das palavras dela?
Imaginava qual motivo o havia condenado ao mutismo gélido dela mas não chegava a nenhuma conclusão. Qual gesto? Qual palavra? O que provocara o silêncio dela? Ele pedira mais de uma vez para escutar dela palavras que fizessem sentido e que o ajudassem a entender a situação. Mas elas não vieram. Nem ela nem suas palavras. Até o dia de hoje, quando finalmente ela falaria com ele.
Saiu da cama e foi ao banheiro. Sua cabeça não parava de pensar em sua situação. Todo desconforto, aflição e tristeza que passara nos últimos meses por conta desse misterioso silêncio dela. Tentara levar a vida normalmente mas foi impossível. Pensava nela em um dia e no outro também. Conseguia disfarçar bem perante os amigos e no trabalho mas por dentro se remoía.
Ninguém fica imune a essa eloquência silenciosa e logo a ansiedade nascida da distância imposta por ela se transformou em angústia. Reuniu forças não sabia de onde e ao invés de transbordar em perguntas preferiu ser cauteloso. Ao longo desse tempo gelado questionou somente duas vezes a atitude dela. Usou palavras cuidadosamente escolhidas para não piorar a situação. Formulou perguntas envoltas na mais fina cortesia, temperadas por afeto mas que traziam em si toda sua ansiedade nascida da incerteza do tratamento que estava recebendo dela.
As vezes se perguntava, por que logo ela o tratava daquela forma? Por que tanto descaso com ele? Onde se metera toda paixão que ela disse ter por ele? Era seu amor mais profundo e sincero e sempre deixara claro isso. Até antes do dia fatídico, um domingo para sempre nublado em sua lembrança, tudo entre eles eram amores. Mas sem excessos. Sabiam como temperar o amor, evitando as melosidades. Fantasiavam juntos, conviviam, chegavam ao ponto de por pura diversão compor prosa poética no ar: cada um dizia uma frase que completasse a do outro. Todo dia trocavam algo bonito e amoroso, falavam dos respectivos cotidianos e se apoiavam mutuamente.
Por isso o choque com a atitude repentina dela. Sem aviso, sem alguma briga ou desentendimento preliminar. No sábado, era amorzinho. No domingo, nada. Difícil de acreditar mas era o que ela tinha feito com ele.
Uns poucos dias depois ele decidiu tocar no assunto dizendo que ela havia se afastado dele. Impressionantemente ela negou o óbvio, falando coisas vagas e sem sentido ou conexão com o que ele questionara. Ele ficou perplexo e sem reação. Era algo inédito, estranho à proximidade e intimidade deles não admitir algo tão cristalino. A conversa não evoluiu, trocaram poucas palavras uns tons pouco acima do vazio do silêncio. Ficou sem chão e sem coragem para questiona-la. E fim.
Dali em diante sua vida nunca mais foi a mesma. A poesia que eles tinham em comum mudou-se para bem longe e cedeu lugar a aridez das frases rasas, comuns e distantes. Clichês em cima de clichês na tentativa de manter alguma proximidade e preencher o vazio do silêncio. Esforço inútil. Aos poucos até o repertório de superficialidades foi se esgotando. Em pouco mais de duas semanas cessaram as mensagens de parte a parte. E nasceu a agonia nele.
No meio do caminho, uma data de comemoração íntima, a memória de uma viagem juntos, a primeira deles. Achou que poderia ser o momento de uma retomada no tom amoroso das conversas. Quem sabe esse mutismo, essa frieza, não teria sido um período curto de reflexão dela? Não queria ser invasivo e se manteve respeitador, apesar da ansiedade enorme que corroía seus pensamentos.
Ledo engano. A data amorosa veio e foi embora sem nada mudar. Ouviu dela somente frases-feitas, bobagens açucaradas e superficiais e se despediram no mesmo tom e forma que fazem os amigos e pronto. Tudo permaneceu frio para quem esteve acostumado ao calor daquele coração bem conhecido e amoroso.
Suspirou sozinho em casa rememorando sua triste trajetória de afastamento. A lembrança veio forte e aproveitou que estava longe das vistas dela e chorou baixinho de profunda tristeza.























